domingo, 19 de abril de 2015

PASSAPORTE FALSO

















                               Marcus Vinicius Quiroga

PASSAPORTE FALSO
( Gullar Gullar) 


Amanhece em Lima, em Santiago, em Buenos Aires
e não é turista
Da janela do hotel avista o medo
               em forma de paisagem

- O que acontece com a América?

Em toda parte alguma polícia
      investiga corações
à procura de esperança
que é proibido ter esperança
                sob pena do uso da força bruta
                ou até mesmo da morte

- Que língua é esta
que me parece tão estranha?

É o efeito dominó
              nos países vizinhos
   A liberdade cai por terra
                    com a cabeça no meio-fio

Escorre um filete de sangue
pelos Andes

e desaparece num bueiro
de São Luís

Lá ainda se assobia a “canção do exílio”

Mas Gonçalves Dias
se perdeu em um naufrágio
e os versos que lá se ouviam
               só dentro de nós ouvimos

Em seu passaporte
     renovam-se carimbos
                                    e os nomes falsos
mas é na carne
que se marcam os distintos exílios
como a prisão
         o hospício
         as mortes         
         ou mesmo a vida

         feita de urgência e sobressaltos





sábado, 18 de abril de 2015

XADREZ DE ESTRELAS
















Marcus Vinicius Quiroga 


XADREZ DE ESTRELAS
(Composições em preto e branco)


O texto se fez de metáfora em metáfora,
como pedras que tornam a estrada mais lenta,
a vagarosa estrada de Minas, a máquina

do mundo, em seu estado de perplexidade.
A escrita exige a cifra do segredo, o escuro
que requer releituras com muito cuidado.

Cabe a quem trova ser porta-voz de uma época,
logo nas fases mais obscuras das histórias,
os poemas se fazem fechada matéria.

Mas talvez tudo seja questão de aparência
e as estrelas estejam tão perto de nós,
que nos ceguem de luz temporariamente.

A estrada se faz em poema com névoa,
se faz à sombra de Drummond, mais vasto mundo,
e pela noite longa não se desespera.

Espera paciente que, depois da curva,
alguma luz se faça e os guie adiante,
ainda que a explicação da vida seja absurda.

Mundo é máquina que em pouco tempo enferruja
e, posta à margem, é só um brinquedo inútil,
de encontro ao qual se vai nas horas mais escuras.

O texto se desfaz na última metáfora:
O xadrez do Vieira não basta ao leitor,
que outros são os enigmas, o país, o áporo.  









sexta-feira, 17 de abril de 2015

A PALAVRA NEBLINA



















Marcus Vinicius Quiroga



A PALAVRA NEBLINA
(Composições em preto e branco) 


A neblina embaça o discurso:
tudo dúbio. Nada se sabe
às claras. A frase enfim para,
espera; parece uma fruta,
natureza imóvel na tela.

A neblina é lâmina fina:
separa a paisagem em duas;
e espalha manhãs antes da hora,
como dias feitos de névoa,
que no asfalto sólido escorrem.

A neblina não é palavra
que baste, mas faz incertezas
na página. E não deixa rasto,
quando parte de vez da cena:
some como em número mágico.  

A neblina apenas traz dúvidas:
o gosto da fruta que escorre
na boca ou é a metáfora
que parece intacta na cesta,
realimentando o enigma.






quinta-feira, 16 de abril de 2015

ANALOGIAS DE PRIMEIRA HORA



Marcus Vinicius Quiroga



ANALOGIAS DE PRIMEIRA HORA
 (A língua dos desertos)

o que distingue o homem
da pedra
é que ele se sabe efêmero;

não sabe, no entanto, o que faz
nos longes,
em que se vê sem expectativa.

a pedra não pensa
nem em poemas metafísicos;

se sujeita como o homem
aos desejos do sol
e imóvel
não perde tempo com perguntas

o homem não se distingue
da pedra,
quando mortos dormem juntos.



quarta-feira, 15 de abril de 2015

COMPOSIÇÃO EM PRETO E BRANCO



















         Marcus Vinicius Quiroga



COMPOSIÇÃO EM PRETO E BRANCO


fosse a pintura recomposta
com tonalidades preta e branca
para que habitassem, mesmo opostas,
o espaço da tela
fossem as figuras ovaladas,
como as fez um dia mestre Grego
nem tão santas, nem tão profanas,
lado a lado postas
fosse o predomínio do tom preto
como do profundo sobre o plano
para que só uma fresta,
uma réstia de luz se insinuasse
espécie de anunciação,
às avessas, e queimasse o quadro
com um fogo discreto, mas permanente,
e se desse a fuga
por aquela réstia de luz,
na tela sobrasse a ausência
e no canto a assinatura de um poeta







terça-feira, 14 de abril de 2015

CINEMA EM PRETO E BRANCO




                                  Marcus Vinicius Quiroga


CINEMA EM PRETO E BRANCO
(Composições em preto e branco)     para Ronaldo Werneck


A última sessão de cinema do bairro
exibiu 8 ½ em sua tela gasta.
Fellini usa Marcelo para fazer Guido,
personagem que faz papel de cineasta.

O diretor se esconde na pele do ator
que, como diretor, reflete sobre a arte.
Quando olho Mastroianni, olho para Fellini,
digo, o tal cineasta Guido em sua parte.

Muitas afinidades unem as personas,
que se embaralham como num baile de máscaras.
Já não sei se Marcelo é Guido ou é Fellini
ou se os três se utilizam do mesmo diálogo.

Sim, é um filme dentro do filme e ainda
duas vezes reflete a imagem no espelho.
É preciso que, com atenção, se reveja
o cinema que só fala sobre ele mesmo.

Mas é tarde no bairro e o filme foi embora. 
Um certo olhar do mundo fechou suas portas.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

A DESTRA E AS SINISTRA


                           Marcus Vinicius Quiroga



A DESTRA E A SINISTRA
(O xadrez e as palavras) 


tudo o que a destra sabe
nada sabe a sinistra
esta não vê o que aquela
esconde, como se carta

o que a destra trapaça 
paga a sinistra em moedas
uma não teme o jogo
que outra julga não dar na vista

a destra sabe a palavra
precisa (se é que existe) 
aquela jamais se fia 
em texto que se crê a salvo 

a destra acaba a frase, 
com destreza de agulha e linha, 
mas a sinistra não passa
linha clara em agulha escura

que a direita não veja
o que faz a esquerda 
enquanto uma se acumula  
de prata, a outra é perda

muitos os danos na lista
de um mundo que pouco presta
ora se inquieta a sinistra,
ora se angustia a destra

ainda que juntas estas duas
dão passos tão diversos
parecem andar em círculos,
em particular deserto

fosse a destra o contrário,
assim seria a sinistra
para que a disputa se desse
além de qualquer limite

se uma de tudo diverge
a outra só desconcilia
e diz no verso o inverso
do que, supõe, antes diria

sorte de quem, ambidestro,
escreve com as duas mãos,
porque bem presto alterna
o dito com o dito não

e terá também por sentença
este movimento eterno
de seguir o que a destra pensa,
de fazer o que ela julga certo

mas acatando a sinistra
nas orientações ambíguas
de modo que se contradiga
em toda e qualquer escrita